A diretoria de Governança, Riscos e Compliance da maior empresa do país monitora sanções internacionais em tempo real, rastreia frotas fantasmas e usa inteligência artificial para vigiar cada negociação dos seus traders. Ricardo Wagner explica como a gigante do petróleo navega num ambiente geopolítico em ebulição sem abrir mão de seus princípios
Em meio a uma entrevista sobre novos riscos geopolíticos e seus impactos para as áreas de Compliance, realizada durante o primeiro encontro do grupo Compliance Mastermind, no dia 27 de fevereiro, Ricardo Wagner, diretor de Governança, Riscos e Compliance (GRC) da Petrobras, saca o celular e mostra uma notícia que havia acabado de receber: o Reino Unido estava sancionando uma empresa brasileira por conta da compra de petróleo transportado por navios russos fantasmas usados para burlar sanções internacionais — e revendendo o produto no mercado doméstico. (N.E.: a empresa em questão é a Brasilleum Energy, uma trading de energia baseada em Belo Horizonte, fundada em outubro de 2024 e controlada pelo azerbaijano Natig Damirov e pelo brasileiro Eduardo Paoliello Nicolau, que entrou na sociedade em dezembro de 2025).
A cena resume bem o ambiente em que opera a diretoria de GRC da Petrobras. Uma canetada em Washington, conflitos no Oriente Médio ou no Leste Europeu… Tudo isso afeta preços, cadeias de suprimentos e redesenham rotas de comércio, gerando muitos riscos para quem opera nesses mercados. A área que Ricardo Wagner comanda precisa estar permanentemente atenta para identificar ameaças antes que elas se tornem crises.
Maior empresa do país e uma das dez maiores produtoras de petróleo do mundo, a Petrobras é uma das maiores traders do planeta, vendendo seus produtos, mas também comprando muitos insumos para a sua produção, como petróleo para fazer gasolina.
Esse alcance global é um dos fatores que torna o trabalho de compliance na estatal tão complexo, ainda mais em um cenário como o atual no qual duas guerras, a da Rússia com a Ucrânia e dos EUA e de Israel contra o Irã, envolvem regiões responsáveis por algo entre 40% e 45% da produção global de petróleo. Além disso, tanto o óleo russo quanto o iraniano são altamente sancionados por Estados Unidos e Europa. Mas o fato de estarem sancionados não significa que esses países tenham deixado de produzir e comercializar seus produtos com países como China, Índia e também por meio das shadows fleets — embarcações que desligam seus rastreadores para se movimentar fora do radar das autoridades ocidentais e transportar petróleo de países sancionados, como a Rússia e o Irã —, que levam esse petróleo para diferentes partes do mundo, inclusive para o Brasil.
Nesse vaivém de navios e contratos cruzando os cinco continentes, as informações sobre sanções comerciais e tensões geopolíticas alimentam diariamente os sistemas de verificação de contrapartes da estatal.
A cada transação, seja uma compra de insumo para refino, seja a venda de um carregamento de petróleo, a área de GRC precisa verificar se a empresa do outro lado da mesa está limpa. O escrutínio vai muito além de checar se um parceiro comercial está numa lista de sanções. A sofisticação do crime organizado global e das táticas de evasão de embargos exige um compliance investigativo que dê conta de endereçar também se o negócio não é fachada para o crime organizado.
O fenômeno das shadow fleets (frotas fantasmas) é um exemplo diário desse desafio. No mesmo bloco que sancionou a empresa brasileira, o Reino Unido colocou outras 175 companhias. Para a Petrobras, o risco aqui é de contágio. Na prática, a companhia precisa garantir que o barril negociado por ela não carregue, em sua composição, produtos oriundos dessas fontes, ou seja, trazer o dinheiro sujo para dentro da operação da companhia. E muito do que vem dessas fontes para cá, está servindo ao crime organizado.
Nos últimos anos, o compliance da Petrobras passou a monitorar com crescente atenção a infiltração do crime organizado no setor de energia, adquirindo ativos e constituindo empresas que, na superfície, parecem absolutamente regulares. Por isso, a área de GRC da Petrobras atua muito fortemente com a área que negocia combustível, justamente um foco de atenção por conta da conhecida atuação do crime organizado nesse setor da economia.
Adaptar-se à velocidade das mudanças globais não é simples. “A Petrobras é um transatlântico. Para fazermos uma curvinha pequena, você tem que movimentar muitas áreas”, compara o diretor. Num cenário geopolítico extremamente volátil, como uma empresa do porte da Petrobras mapeia esses novos riscos e define suas red flags?
Para Wagner, a resposta está em separar o que é contextual do que é estrutural. As mudanças no ambiente externo são monitoradas e incorporadas à análise de risco. Para que a companhia não fique à deriva a cada nova manchete internacional, a âncora é baseada em pilares imutáveis. O apetite por risco encontra seu limite na integridade, independentemente da margem de lucro em jogo.
Internamente, a vigilância é igualmente rigorosa. Na Petrobras, os traders são impedidos de fechar negócios ou discutir operações por telefones particulares. Todas as operações realizadas pelos traders da Petrobras são monitoradas em tempo real por um sistema que registra ligações, mensagens, horários, contrapartes e conteúdo das negociações. O volume de interações exige que o GRC utilize inteligência artificial como primeira barreira de triagem. Aplicativos transcrevem e analisam as conversas e metadados, buscando anomalias, palavras-chave ou padrões de risco. A partir dos alertas gerados pela IA, a equipe humana de Compliance entra em cena para conduzir análises apuradas, garantindo que nenhum negócio seja fechado no escuro. Qualquer negociação — independentemente de como tenha sido iniciada — precisa ser formalizada em ambiente oficial e regulado pela companhia.
O Brasil não sanciona, mas a Petrobras não ignora
Um dos maiores desafios da cadeira ocupada por Ricardo Wagner é equilibrar a natureza da Petrobras — uma empresa de economia mista, mas historicamente muito atrelada ao Governo brasileiro — com a realidade fria dos mercados e das regulações globais.
O Brasil possui uma tradição diplomática de não aplicar sanções unilaterais. Na teoria, companhias brasileiras podem fazer negócios com a Rússia ou o Irã. Na prática, para a Petrobras, a conta é outra. “Nós tratamos isso como uma situação comercial que pode impactar a empresa em áreas como financiamento, ou mesmo expor a própria companhia a alguma sanção indireta. Por isso, não fazemos negócios com empresas destas localidades”, decreta Wagner.
Claro que existem muitas nuances nesses cenários. Pode ser que a sanção seja para uma empresa específica, e não para o país, o que é o mais comum, inclusive. Mas se for uma sanção internacional que afete qualquer relação comercial com aquele país, ou com algum setor do país (e as petroleiras costumam fazer parte desse grupo), a Petrobras não vai fazer negócio para evitar prejuízos financeiros enormes, fechamento de mercados ou perda de linhas de crédito mais baratas disponíveis no mundo. “O risco reputacional e financeiro de cruzar essa red flag supera qualquer ganho imediato que a operação pudesse gerar”, conclui.