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Prevenção ao assédio: por que as empresas devem gerir comportamentos, e não personalidades.

Personalidade não é licença para desrespeitar. Prevenção ao assédio depende do alinhamento de comportamentos, e não da mudança de quem as pessoas são. Explico.
Em muitas organizações, ainda é comum ouvir frases como: “Esse é o jeito dele”, “Ela sempre foi assim” ou “Precisamos respeitar a personalidade das pessoas”. Embora a valorização da individualidade seja essencial para ambientes diversos e inclusivos, existe um equívoco perigoso quando traços de personalidade são utilizados para justificar comportamentos que desrespeitam, constrangem ou excluem outras pessoas.

Na prática, personalidade e comportamento não são sinônimos. Compreender essa diferença é um dos passos mais importantes para a construção de culturas organizacionais saudáveis e para a prevenção efetiva do assédio, das microagressões e de outras formas de violência no trabalho.

A personalidade pode ser entendida como um conjunto relativamente estável de características psicológicas, emocionais e cognitivas que influenciam a forma como cada indivíduo percebe o mundo e se relaciona com ele.[1] Pessoas podem ser mais introvertidas ou extrovertidas, mais analíticas ou intuitivas, mais reservadas ou expansivas. Esses traços fazem parte da singularidade humana e merecem ser respeitados.

O comportamento, por outro lado, corresponde às ações concretas que uma pessoa escolhe adotar em determinado contexto social. Diferentemente da personalidade, o comportamento é aprendido, moldado, incentivado, corrigido e transformado ao longo da vida. Ele responde às normas sociais, aos valores compartilhados, às consequências das próprias atitudes e às expectativas dos grupos dos quais fazemos parte.

A própria psicanálise reconhece a importância do processo de socialização e da internalização de normas para a convivência coletiva. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), argumenta que a vida em sociedade exige renúncias e regulações dos impulsos individuais em benefício da convivência e da construção da cultura.[2] Em outras palavras, viver em comunidade pressupõe a capacidade de ajustar comportamentos para garantir o respeito mútuo e o bem comum.

No ambiente corporativo, essa reflexão é particularmente relevante. Não existe traço de personalidade que justifique humilhações, comentários discriminatórios, piadas ofensivas, interrupções constantes, intimidações, microagressões ou qualquer forma de assédio moral ou sexual. Ser uma pessoa extrovertida não autoriza invasões de limites. Ser direta não significa ser agressiva. Ser exigente não legitima práticas humilhantes. Da mesma forma, ser espontâneo não elimina a responsabilidade pelos impactos das próprias palavras e atitudes.

Quando uma organização estabelece padrões de respeito, diversidade e inclusão, ela não está tentando modificar a essência ou a personalidade de seus colaboradores. Está, na verdade, definindo comportamentos mínimos esperados para todos, independentemente de suas características individuais. Esses comportamentos precisam estar alinhados ao propósito da empresa, às políticas internas e, sobretudo, à legislação vigente.

Aceitar diferenças não significa tolerar violações de direitos. Respeitar a individualidade não implica relativizar condutas inadequadas. Pelo contrário: ambientes verdadeiramente inclusivos são aqueles em que pessoas com diferentes perfis, crenças, histórias e estilos de personalidade conseguem conviver porque compartilham um mesmo compromisso comportamental baseado no respeito, na dignidade e na segurança psicológica.

Essa distinção também é fundamental para que líderes e equipes de recursos humanos possam atuar com clareza diante de situações de conflito. Muitas vezes, gestores evitam dar feedbacks ou corrigir comportamentos inadequados por acreditarem que estariam interferindo na personalidade ou na autenticidade do indivíduo. Trata-se de uma falsa dicotomia. Solicitar que alguém interrompa uma prática ofensiva, respeite limites ou aprenda formas mais adequadas de interação não representa uma violência contra sua identidade. Representa, ao contrário, uma exigência legítima de convivência civilizada e profissional.

Nesse contexto, treinamento e comunicação assumem papel estratégico. Afinal, se comportamentos podem ser aprendidos e transformados, é responsabilidade das organizações criar mecanismos permanentes de alinhamento cultural.

Treinamentos sobre assédio, diversidade, inclusão, comunicação não violenta e liderança respeitosa não existem para padronizar personalidades ou eliminar diferenças. Sua função é estabelecer referências comuns sobre aquilo que é aceitável e aquilo que não será tolerado no ambiente de trabalho. Eles oferecem linguagem, repertório e consciência sobre impactos que muitas vezes não são percebidos por quem pratica determinadas condutas.

Da mesma forma, processos contínuos de comunicação interna reforçam valores, traduzem expectativas e mantêm vivos os princípios que sustentam a cultura organizacional. Não basta possuir códigos de conduta e políticas formalmente aprovados. É necessário transformá-los em práticas cotidianas, compreendidas e incorporadas por todos.

Empresas que investem consistentemente em educação e comunicação conseguem reduzir ambiguidades, fortalecer a confiança e criar ambientes nos quais o respeito deixa de ser uma escolha individual para tornar-se um compromisso coletivo.

No final das contas, a grande mensagem é simples, mas poderosa: ninguém precisa deixar de ser quem é para tratar o outro com dignidade. O que se espera não é a mudança da personalidade, mas a responsabilidade sobre os próprios comportamentos. E essa responsabilidade é universal, inegociável e indispensável para qualquer cultura organizacional que pretenda ser ética, inclusiva e livre de assédio.


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Referências
[1] SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. Teorias da Personalidade. São Paulo: Cengage Learning, 2016.
[2] FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. Obra original publicada em 1930.

As opiniões contidas nas publicações desta coluna são de responsabilidade exclusiva da Autora, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
Foto de Cátia Veloso

Cátia Veloso

Sócia Fundadora da MariaQuitéria Consultoria
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