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Entre a Teoria e a Realidade

O que pensam os líderes de Compliance sobre a formação dos jovens profissionais que chegam à área

Para quem está na liderança de Compliance, a formação dos profissionais que chegam para trabalhar na área é uma preocupação legítima. Afinal, são esses profissionais, em sua grande maioria jovens, que precisarão executar as tarefas e suportar os planos e estratégias pensadas nos níveis mais altos da hierarquia. É um sentimento compartilhado que, embora a qualificação tenha avançado, ainda há um caminho a ser percorrido para alinhar as expectativas do mercado com a realidade da formação.

A ascensão do Compliance como pilar estratégico para a sustentabilidade dos negócios no Brasil desencadeou uma transformação sem precedentes na formação de profissionais para a área. Uma nova geração, forjada em uma vasta gama de cursos de especializações, MBAs e mais um sem número de conteúdos específicos sobre o tema, chega ao mercado com um nível de conhecimento teórico que praticamente não existia até pouco mais de uma década, quando o acesso a conteúdo e educação sobre o tema era parco, o que fez com que a maior parte dos profissionais das primeiras gerações de profissionais tivesse que aprender a praticar o Compliance na cara e na coragem.

No entanto, o inegável avanço na qualificação técnica vem acompanhado por um sinal de alerta das atuais lideranças da área: a travessia do conhecimento teórico para a realidade do mundo corporativo ainda é cheia de desafios. Desafios que, na verdade, não são muito diferentes daqueles vividos por profissionais em outras áreas do conhecimento. A única diferença talvez esteja na juventude da própria carreira de compliance.

A análise aprofundada das respostas de centenas de executivos à pesquisa do Compliance on Top 2025 sobre o processo de formação dos jovens profissionais de Compliance hoje, o nível de preparo com os quais estão chegando ao mercado, seus gaps e o que ainda pode ser melhor endereçado nessas formações, revela um cenário de contrastes. “Avalio o processo de formação dos jovens profissionais com um misto de otimismo e preocupação no quesito de qualidade no ensino e transmissão de informação”, pondera Osmar Aguiar Junior, diretor de Integridade, Segurança e Prevenção de Perdas da varejista Leroy Merlin. Se por um lado há um consenso sobre o grande avanço na preparação teórica, por outro, emergem preocupações sobre a dificuldade de traduzir esse conhecimento em ações práticas e estratégicas no complexo ambiente do compliance corporativo.

Embora a crescente oferta de cursos e formações represente um avanço significativo na consolidação da cultura de integridade no Brasil, existe a preocupação de que a massificação vista nos últimos tempos possa levar a uma superficialidade na formação. “Compliance, Integridade, Investigações Corporativas, em sua essência, não são ciências exatas, mas disciplinas que exigem profunda compreensão do negócio, habilidades de comunicação, inteligência emocional e a capacidade de navegar em cenários complexos e, por vezes, ambíguas”, lembra o diretor da Leroy Merlin.

Conhecimento amplo, aplicação restrita

Apesar da preocupação com a qualidade do conteúdo, o ponto de partida teórico dos novos profissionais de compliance é inegavelmente positivo. “Hoje, os jovens profissionais chegam mais bem preparados em fundamentos como políticas internas, programas de integridade e due diligence”, acredita Sadik Sarkis, diretor Jurídico e de Compliance da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, uma entidade do terceiro setor apoiada por grandes empresas.

No entanto, o maior preparo acadêmico contrasta com as exigências da prática, que vem se transformando e se complexificando numa velocidade igualmente impressionante. “O cotidiano do profissional de compliance envolve lidar com dilemas éticos, zonas cinzentas, tensões políticas internas e decisões que testam o equilíbrio entre o ideal normativo e a viabilidade operacional. E isso ainda está distante da maioria dos programas de formação”, acredita a Head de Compliance para América Latina da companhia agrícola Louis Dreyfus Company, Marcela Gambôa.

Outro elemento importante que precisa ser considerado no processo de formação é a graduação de origem dessas pessoas. Historicamente, a área de Compliance atrai muitas pessoas formadas em Direito, uma herança da natureza regulatória da disciplina. Embora essa base jurídica seja valiosa, ela também pode gerar um viés que limita a eficácia do programa. “A origem no Direito, que é positiva, mas pode gerar uma abordagem muito normativa e menos estratégica ou comportamental. Falta, por exemplo, formação interdisciplinar em psicologia organizacional, comunicação, análise de dados e gestão de riscos”, aponta Thiago Takaki, diretor de Compliance da holding Torao, que opera empresas em áreas como biotecnologia e bioenergia.

A crítica de Takaki aponta para uma das maiores transformações em curso na área: a transição de uma função muito focada em conformidade com as leis e normas, para uma função estratégica de gestão de cultura e riscos. “No meu ponto de vista, o profissional de compliance precisa entender mais de comportamento humano do que de legislação, uma vez que, neste último caso, o apoio do jurídico será prestado”, afirma Marcelo Ribeiro, diretor de Governança e Conformidade do estaleiro Toyo Setal, lembrando que quem comete fraude, assédio, discriminação ou um ato de corrupção não são as empresas, mas sim os indivíduos. “Aí está a importância de conhecer sobre comportamento e psicologia”, reforça. Juntas, as duas visões indicam uma demanda clara do mercado por um profissional mais completo, que combine o conhecimento técnico com uma profunda sensibilidade para as dinâmicas humanas e organizacionais.

Uma via de mão dupla

A fluência digital da nova geração é frequentemente citada como uma vantagem competitiva. Contudo, a relação entre Compliance e tecnologia é mais complexa do que parece e revela uma lacuna de aprendizado que corre em duas direções. De um lado, ferramentas de IA e automação estão assumindo tarefas básicas que, como aponta Renata Fidale, Diretora Jurídica e de Compliance da Zambon, antes cabiam aos profissionais em início de carreira.

Vale dizer que a dificuldade de adaptação com as novas realidades impostas pelo uso de ferramentas digitais para o trabalho da área não é exclusiva dos novatos. Allexandre Lugão, gerente de Compliance e Auditoria Interna do Pátria Investimentos, faz um contraponto fundamental, sugerindo que o gap tecnológico também existe entre os mais experientes. “Com a transformação digital que temos passado, vejo que é mais fácil ensinar compliance para alguém com boa formação em tecnologia – e acho que um gap de profissionais mais experientes é querer aprender mais sobre as ferramentas disponíveis para nos apoiar”, provoca.

A carência de Soft Skills

O ponto de maior consenso entre todos os profissionais que responderam à pesquisa do Compliance On Top é a urgente necessidade de desenvolver as competências comportamentais. “Muitos cursos ainda são excessivamente teóricos e não simulam os dilemas reais enfrentados no dia a dia. Falta integração com áreas como psicologia organizacional, gestão de riscos, comunicação e comportamento humano. Mas, sobretudo, falta o desenvolvimento das soft skills“, afirma Gustavo Biagioli, diretor de Compliance do escritório de advocacia Trench Rossi.

A natureza do trabalho de integridade exige paciência e profundidade, algo que nem sempre encontra eco entre os profissionais mais novos. E dentro desse universo de habilidades, uma se destaca pela sua importância na rotina de Compliance: a resiliência. A qualidade, inerente a quem pretende desenvolver uma carreira de longo prazo na área, precisa ser bastante trabalhada, como diz Morganna Borges Lisboa, superintendente de Controle Institucional, do banco estatal do Distrito Federal BRB. “Percebo que a ansiedade em ver resultados e entregas impacta os jovens profissionais que não entendem que Compliance é processo contínuo e dinâmico e que precisa ser revisado sempre para correção de rumos”. Na mesma linha, Marcos Rossa, Compliance Manager para Américas da empresa do setor imobiliário Cushman & Wakefield pontua que os jovens, via de regra, são imediatistas, o que pode levar muitos deles a incorrer em falta de paciência na análise e investigação. O imediatismo, característica frequentemente associada às novas gerações, pode ser um obstáculo em uma área cujo trabalho é, por natureza, um jogo de longo prazo. “A gestão de compliance demanda tempo e resiliência, o que os jovens não estão acostumados”, analisa o executivo

O papel da liderança

As instituições de ensino precisam manter o dinamismo nos seus currículos sobre Compliance para manter suas grades (e seus alunos) alinhados à realidade do dia a dia das empresas, introduzindo novas disciplinas e competências, como as próprias soft skills, além de trazer ao máximo esse ensino  para perto da prática.

Mas a academia, por mais que possa avançar nas suas formações para incorporar as novas necessidades identificadas pelos líderes da área, tem uma limitação natural para oferecer aos seus alunos a prática, em especial para preparar os jovens para as “zonas cinzentas”. Por isso, as empresas precisam exercer um papel fundamental na continuidade dessa formação. E a ferramenta mais eficaz de mentoria é a prática. “Os jovens em início de carreira precisam de oportunidades para colocar a mão na massa”, afirma Allexandre Lugão. A questão que fica, como questiona Sadik Sarkis, é: “estamos formando profissionais para falar sobre integridade ou para efetivamente fazer a integridade acontecer?”.

Essa mentoria começa na base. “O compliance officer tem um papel importante no interesse e especialização desses profissionais, devendo estimular a diversidade de formação profissional do time, começando por um programa de estagiários estruturado”, complementa Caroline Brossa, Latam Compliance Director da Johnson & Johnson Innovative Medicine.

Mais do que as empresas, as próprias lideranças de Compliance têm um papel estratégico na formação dos novos profissionais que chegam para trabalhar com eles. “Cabe a nós complementarmos a formação técnica com uma jornada estruturada de desenvolvimento: oferecer mentoria ativa, expor o jovem profissional a dilemas reais com segurança e acompanhamento e ajudar a fomentar o pensamento crítico e transversal”, explica Marcela, da Louis Dreyfus Company.

Mais do que formar um “executor de políticas”, o mercado de Compliance, empresas, profissionais e instituições de ensino precisam urgentemente de líderes capazes de formar novos líderes.


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Artigo publicado originalmente no Anuário Compliance ON TOP 2025
As opiniões contidas nesta publicação são de responsabilidade exclusiva dos Autores, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
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