A integridade nas organizações depende de diversos mecanismos, mas poucos são tão relevantes para a prevenção e gestão de riscos quanto a due diligence, processo estruturado de verificação e análise de informações que permite conhecer melhor terceiros, operações ou parceiros comerciais antes do início e ao longo do relacionamento com a empresa. Mais do que uma etapa operacional ou um requisito regulatório, ela se tornou uma ferramenta estratégica para apoiar decisões, fortalecer relações comerciais e aumentar a capacidade das empresas de compreenderem os riscos e as oportunidades presentes em seus ecossistemas.
Ao longo dos últimos anos, no entanto, a própria due diligence passou por uma transformação importante. O que antes era, em muitos casos, um processo predominantemente concentrado na revisão documental, pesquisas de mídia negativa, consultas a listas restritivas e validação de informações cadastrais, passou a demandar uma visão mais ampla e dinâmica dos riscos de um negócio.
Esse movimento de robustez do processo surge para atender a cadeias globais cada vez mais complexas, expectativas crescentes de clientes, investidores e demais stakeholders, além da evolução das discussões relacionadas à sustentabilidade e à governança corporativa que fizeram com que as organizações passassem a olhar para além da empresa com a qual mantêm uma relação direta.
A pergunta deixou de ser apenas “quem é a empresa com a qual estou me relacionando?” para incorporar também “qual é o contexto da cadeia que sustenta essa relação?”
Os processos tradicionais continuam sendo fundamentais. Revisões de documentação societária, identificação de beneficiários finais, consultas a listas restritivas, análises reputacionais e pesquisas de mídia permanecem sendo pilares essenciais de um programa robusto de integridade. Entretanto, essas ferramentas, isoladamente, possuem limitações naturais e não são mais suficientes.
Uma organização pode apresentar documentação regular, não possuir sanções aplicáveis e não ter registros negativos relevantes em fontes públicas, mas ainda assim estar inserida em contextos específicos de risco relacionados à origem de materiais, localização geográfica, estruturas de intermediação complexas ou particularidades inerentes à cadeia em que atua. Nesse cenário, a análise baseada em risco ganha ainda mais relevância, pois acende alertas importantes sobre fatores que, isoladamente, podem parecer neutros, mas que, combinados, podem alterar significativamente o perfil de risco da relação ou da operação.
Como gerente de Compliance na Nexa Resources, empresa global de mineração e metalurgia, acompanhei de perto uma evolução importante que tivemos em nossos processos. Hoje precisamos atender a demandas de cadeias cada vez mais exigentes, estamos sempre atentos aos nossos compromissos com a sustentabilidade e com a construção de uma mineração que acompanha as transformações do mundo. Esse cenário, nos levou a ampliar o olhar sobre a análise da cadeia de fornecimento de minerais. Esse processo foi impulsionado por uma atuação conjunta entre Compliance e a área Comercial e pela busca contínua por fortalecer práticas alinhadas aos temas ESG e ao fornecimento responsável.
Nesse contexto, a certificação Joint Due Diligence Standard (JDDS), da London Metal Exchange (LME), tornou-se um importante direcionador dessa evolução. A JDDS estabelece requisitos relacionados à identificação, avaliação e mitigação de riscos na cadeia mineral, alinhados às diretrizes da OECD Due Diligence Guidance for Responsible Mineral Supply Chains. O processo de certificação demanda implementação efetiva, mecanismos de monitoramento, avaliação contínua e demonstração prática dos controles adotados. Na prática, isso significou incorporar novos elementos ao processo, incluindo avaliações mais profundas sobre origem dos materiais, rastreabilidade, contexto geográfico, análise de riscos específicos da cadeia e mecanismos adicionais de monitoramento, além de promover maior integração entre diferentes áreas da companhia.
Os resultados foram percebidos sob diferentes perspectivas. Do ponto de vista comercial, processos mais robustos fortalecem credibilidade, aumentam a capacidade de resposta a demandas cada vez mais sofisticadas e reforçam relações de confiança. Sob a perspectiva de gestão de riscos, permitiu identificar elementos que dificilmente seriam capturados em processos tradicionais, reduzindo potenciais exposições reputacionais, regulatórias e operacionais.
Acredito que o principal aprendizado tenha sido a maturidade de entender que due diligence não representa um ponto de chegada, uma vez que o mesmo processo que hoje parece robusto pode não ser suficiente amanhã. Novos riscos surgem, cadeias se transformam, expectativas evoluem e a própria percepção sobre integridade continua mudando. O desafio é, portanto, construir um processo que nos provoque a questioná-lo continuamente.
E é exatamente isso que temos feito na Nexa. Mesmo após avanços importantes, já estamos novamente olhando para nossos processos e avaliando novas formas de complementá-los e fortalecê-los, pois acreditamos que, em integridade, a evolução contínua talvez seja a única resposta capaz de acompanhar um mundo que continua em constante transformação.
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